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Ciência brasileira transforma décadas de pesquisa em vacina inédita contra a dengue

Pesquisadora Neuza Frazzati lidera no Instituto Butantan o desenvolvimento do primeiro imunizante nacional de dose única contra a doença, com alta eficácia contra casos graves.
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Pesquisadora Neuza Frazzati liderou no Instituto Butantan o desenvolvimento da primeira vacina brasileira de dose única contra a dengue, resultado de décadas de pesquisa científica (Divulgação/Instituto Butantan). Por: Editorial | 12/03/2026 07:24

Após décadas de pesquisa científica, o Brasil começou a aplicar a primeira vacina totalmente desenvolvida no país contra a dengue. O imunizante, criado no Instituto Butantan sob liderança da pesquisadora Neuza Frazzati, representa um avanço significativo no combate à doença, responsável por milhões de infecções e milhares de mortes no território nacional ao longo das últimas décadas.

Desde o início dos anos 2000, o Brasil registrou mais de 25 milhões de casos de dengue e cerca de 18 mil mortes associadas à enfermidade. Considerada uma doença negligenciada por afetar principalmente regiões tropicais e países em desenvolvimento, a dengue por muitos anos recebeu menos investimentos em pesquisa e desenvolvimento de soluções eficazes. Nesse contexto, o surgimento da vacina Butantan-DV marca um momento histórico para a saúde pública brasileira.

O novo imunizante apresenta uma característica inédita: é a única vacina contra dengue de dose única disponível no mundo. Estudos clínicos realizados com mais de 16 mil voluntários apontaram eficácia de aproximadamente 75% contra a doença e superior a 90% na prevenção de formas graves e hospitalizações. Esses resultados são considerados relevantes em um país que convive com surtos recorrentes da doença.

Neuza Frazzati ingressou no Instituto Butantan na década de 1980 e construiu sua carreira científica no desenvolvimento de vacinas. Formada em biologia e doutora em biotecnologia pela Universidade de São Paulo, a pesquisadora afirma que sua motivação sempre esteve associada ao desejo de contribuir para a melhoria da saúde pública.

No início da trajetória no instituto, Frazzati trabalhou com pesquisas relacionadas ao vírus da influenza. Em um laboratório vizinho, estudos sobre vacina contra a raiva utilizavam grande quantidade de animais em experimentos, o que despertou nela o interesse em desenvolver métodos alternativos de produção. A partir dessa inquietação, iniciou uma linha de pesquisa voltada para o cultivo viral em células Vero, uma linhagem celular estável obtida originalmente de rins de macaco-verde-africano e utilizada em diversos centros de pesquisa no mundo.

O método permitiu substituir o uso de tecidos de origem animal na produção de vacinas contra a raiva em humanos. Após cerca de dez anos de estudos, o imunizante foi licenciado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2008. A inovação científica rendeu à pesquisadora o prêmio internacional Péter Murányi na área da saúde.

A experiência acumulada nesse processo foi fundamental para o desenvolvimento posterior da vacina contra a dengue. Entre 2006 e 2007, o Brasil enfrentava um aumento expressivo nos casos da doença, com centenas de mortes registradas. Diante desse cenário, Frazzati recebeu o desafio de liderar um projeto para criar um imunizante capaz de proteger a população.

O principal obstáculo científico estava relacionado às características do vírus da dengue, que possui quatro sorotipos diferentes. Para que uma vacina seja eficaz, ela precisa oferecer proteção equilibrada contra todos eles sem provocar respostas imunológicas inadequadas.

Os estudos tiveram início com uma equipe reduzida de pesquisadores, responsável pelo cultivo dos vírus e pela realização de sucessivos testes até alcançar uma formulação segura e eficaz. Com o avanço das pesquisas e a crescente preocupação com a doença no país, o grupo de trabalho foi ampliado e chegou a reunir cerca de 50 cientistas.

Outro desafio importante esteve relacionado à estabilidade do imunizante. Na forma líquida, o vírus atenuado não permanecia viável por tempo suficiente para garantir a distribuição em um país com dimensões continentais e com diferentes realidades de infraestrutura de armazenamento. A solução encontrada foi a liofilização, processo que transforma o produto em pó e permite que ele seja reconstituído apenas no momento da aplicação. Essa estratégia facilita o transporte e aumenta a durabilidade da vacina.

Foram necessários cerca de quatro anos de experimentos laboratoriais e mais de 200 testes até que a equipe alcançasse uma formulação eficaz contra os quatro sorotipos da dengue. Em 2011, os pesquisadores já dispunham de um protótipo de vacina de dose única capaz de gerar resposta imunológica adequada.

Entretanto, antes de chegar à população, o imunizante precisou passar por todas as etapas de avaliação clínica exigidas pelas autoridades sanitárias. Os estudos incluíram análises de segurança, imunogenicidade e eficácia em voluntários. Somente após a conclusão dessas fases e a análise regulatória da Agência Nacional de Vigilância Sanitária o produto foi autorizado para uso.

A aprovação ocorreu no final de 2025, e as primeiras doses começaram a ser distribuídas no início de 2026. Neste primeiro momento, a vacinação foi direcionada a grupos prioritários, como profissionais de saúde. A expectativa do Ministério da Saúde é ampliar a imunização para pessoas entre 15 e 59 anos ao longo do segundo semestre.

Atualmente, o Sistema Único de Saúde já utiliza uma vacina contra dengue chamada Qdenga, que é importada e aplicada em duas doses. A dependência de produção internacional, aliada ao custo elevado e à limitação no número de doses disponíveis, dificultava a ampliação da cobertura vacinal no país.

Com a produção nacional, especialistas acreditam que será possível aumentar significativamente o número de pessoas imunizadas. Estimativas indicam que, com cerca de 50% da população vacinada, o Brasil poderá observar uma redução expressiva nos casos da doença e nas hospitalizações.

Apesar disso, a erradicação completa da dengue ainda é considerada improvável, uma vez que a transmissão depende da circulação do mosquito Aedes aegypti, favorecida pelo clima tropical e pelo aumento das temperaturas. Mesmo assim, a vacinação em larga escala pode reduzir drasticamente as mortes associadas à enfermidade.

Para Neuza Frazzati, a chegada da vacina representa não apenas um avanço científico, mas também a concretização de um objetivo de vida. A pesquisadora destaca que o resultado é fruto do trabalho coletivo de dezenas de profissionais dedicados à ciência brasileira e à saúde pública. Com informações: g1




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