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Comunidade Tia Eva se torna o primeiro quilombo do Brasil oficialmente tombado pelo Iphan

Reconhecimento federal protege território histórico em Campo Grande e fortalece a preservação da memória e das tradições afro-brasileiras mantidas por cerca de 250 famílias descendentes da fundadora Eva Maria de Jesus.
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Igreja de São Benedito, construída em 1919, é um dos principais símbolos históricos e religiosos da Comunidade Tia Eva, em Campo Grande (Foto: Denilson Secreta/Guia Negro). Por: Editorial | 11/03/2026 07:15

A Comunidade Tia Eva, localizada em Campo Grande, passou a integrar oficialmente o patrimônio cultural brasileiro ao se tornar o primeiro quilombo do país reconhecido por meio de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A decisão foi oficializada em 10 de março, durante reunião do conselho do órgão realizada no Rio de Janeiro.

Com o reconhecimento, foi publicada no Diário Oficial da União a portaria que institui um livro do tombo específico para territórios quilombolas, além de um mapa que delimita a área agora protegida pelo governo federal. A medida assegura maior preservação do espaço e reforça a relevância histórica, cultural e social da comunidade na capital sul-mato-grossense.

O território reúne atualmente cerca de 250 famílias que descendem diretamente da fundadora Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva. Para os moradores, o tombamento representa um marco na trajetória de resistência e continuidade cultural da comunidade. Segundo o presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva, Ronaldo Jefferson da Silva, o reconhecimento simboliza a permanência do legado deixado pela fundadora.

De acordo com ele, a história da comunidade está ligada à busca por autonomia e identidade. Eva Maria de Jesus teria migrado de Mineiros, em Goiás, em busca de um local onde pudesse estabelecer sua família e construir um espaço próprio para manter suas tradições e sua linhagem.

(Foto: Denilson Secreta/Guia Negro).

O processo que resultou no reconhecimento começou em 2024, quando a própria comunidade solicitou o tombamento. A partir da demanda, o Iphan iniciou um levantamento detalhado das referências culturais presentes no território. Durante aproximadamente dois anos, técnicos do instituto trabalharam em conjunto com moradores para identificar tradições, práticas culturais, espaços históricos e registros da memória coletiva.

Com base nesse estudo, o conselho do instituto aprovou o tombamento do território quilombola. Segundo o superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, João Henrique dos Santos, o reconhecimento amplia a presença do Estado brasileiro junto à comunidade e cria mecanismos de proteção das manifestações culturais existentes no local.

Entre os principais símbolos históricos da comunidade está a Igreja de São Benedito, construída em 1919. O templo já possui tombamento como patrimônio histórico em nível municipal e estadual e atualmente passa por um processo de restauração. A igreja integra um projeto de revitalização que inclui a construção de uma praça, um centro de atendimento comunitário e a reforma do salão de eventos.

O investimento total do projeto supera R$ 2,2 milhões. Mesmo com as chuvas registradas recentemente na região, o cronograma das obras permanece dentro do prazo estabelecido. A previsão é que o complexo seja concluído até junho do próximo ano.

Segundo o gerente de projetos e orçamentos da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul), Adanilton Faustino de Souza Júnior, a restauração da igreja foi priorizada devido às condições estruturais do edifício. A expectativa também é que o templo esteja restaurado a tempo das celebrações que marcam o centenário de morte de Tia Eva.

Para a arquiteta Raíssa Almeida Silva, moradora da comunidade que participou do levantamento histórico realizado pelo Iphan, o tombamento representa uma conquista histórica. Ela destaca que o reconhecimento amplia a visibilidade da história da comunidade, ainda pouco conhecida por parte da população de Campo Grande.

Eva Maria de Jesus nasceu em Mineiros, no estado de Goiás, e viveu parte da vida em condição de escravidão, conquistando posteriormente sua alforria no final do século XIX. Em 1905, mudou-se para a região onde hoje está localizada a capital sul-mato-grossense, acompanhada de suas três filhas.

Na nova localidade, adquiriu um terreno e iniciou a formação de uma comunidade que se consolidaria como um dos mais antigos territórios quilombolas urbanos do país. Conhecida por sua religiosidade e pelo trabalho social realizado com os moradores da região, Tia Eva atuava como parteira, benzedeira, curandeira e professora.

Devota de São Benedito, também foi responsável pela construção da primeira igreja da comunidade, que deu origem ao atual templo dedicado ao santo. Até hoje, os descendentes mantêm uma tradicional celebração religiosa em homenagem ao padroeiro, considerada uma das principais manifestações culturais da comunidade.

Tia Eva morreu em 1926, mas o território fundado por ela permanece ativo e habitado por centenas de descendentes que preservam práticas culturais, tradições religiosas e a memória histórica construída ao longo de gerações. Com informações: g1




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