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Hoje é Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2026.
Durante décadas tratado como sobra de açougue no Brasil, o pé de galinha passou por uma transformação significativa e se tornou um produto altamente valorizado no mercado internacional. O principal responsável por essa mudança foi a abertura comercial da China às exportações brasileiras de carne de frango, iniciada em 2009, que transformou um item antes sem valor comercial em um negócio milionário.
A chef Jiang Pu, chinesa radicada em São Paulo, relembra que quando seus pais chegaram ao Brasil, em 1998, o pé de galinha era distribuído gratuitamente nos açougues. Hoje, o produto é valorizado tanto no atacado quanto no varejo. Em 2026, o preço médio no estado de São Paulo chegou a R$ 5,75 o quilo, valor 41,3% superior ao registrado em 2020, segundo levantamento do analista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado.
A China é atualmente o principal destino do pé de galinha brasileiro. Apenas em 2025, o Brasil faturou US$ 221 milhões com a exportação do produto para o país asiático, crescimento de 9,5% em relação ao ano anterior, de acordo com dados do Ministério da Agricultura. Segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a China é o mercado que melhor remunera o produto, pagando cerca de US$ 3 mil por tonelada.
Além da China, a África do Sul se consolidou como o segundo maior comprador do pé de galinha brasileiro. Em 2025, o país africano mais que quadruplicou suas importações em comparação a 2024, alcançando US$ 49 milhões, mesmo pagando um valor médio inferior, de cerca de US$ 2 mil por tonelada.
A valorização do produto não se limita às exportações. O crescimento da indústria pet no Brasil também impulsionou a demanda interna, já que o pé de galinha é utilizado na produção de farinhas e rações para animais domésticos. Segundo Santin, o volume que não segue para o mercado externo é destinado majoritariamente a esse segmento.
Na China, o pé de galinha é amplamente consumido como petisco. Vendido temperado, embalado a vácuo e pronto para o consumo, o produto pode ser encontrado em lojas de rua e até em máquinas automáticas em estações de metrô e shoppings. Culturalmente, ele cumpre um papel semelhante ao do amendoim no Brasil, sendo consumido aos poucos, como um snack. Também é usado na culinária para engrossar caldos, devido ao alto teor de colágeno.
Na África do Sul, o pé de galinha é base de pratos tradicionais, como o “walkie-talkie”, preparado com pés e cabeça de frango. Diferentemente da China, onde a textura crocante é valorizada, na culinária sul-africana o miúdo é cozido lentamente e servido ensopado, com temperos marcantes. O prato tem origem histórica ligada ao período colonial, quando populações negras passaram a utilizar miúdos devido à restrição de acesso a cortes considerados nobres.
Esse aproveitamento integral dos alimentos também está presente na cultura chinesa, marcada por períodos de escassez, guerras e desastres naturais, que estimularam o uso criativo de todas as partes dos animais. Assim, o que antes era visto como descarte no Brasil se tornou símbolo de adaptação cultural e oportunidade econômica no comércio internacional. Com informações: g1
