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Hoje é Domingo, 11 de Janeiro de 2026.
A presença das facções criminosas em todo o território brasileiro tem provocado um tipo de violência cada vez mais preocupante: a execução de pessoas sem qualquer envolvimento com o crime, confundidas com integrantes de grupos rivais por conta de gestos, símbolos ou comportamentos considerados faccionais. Um levantamento do ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project) aponta que, apenas em 2024, ao menos 16 mortes foram registradas em decorrência desse tipo de interpretação equivocada, número quatro vezes maior do que o observado em 2023, quando houve quatro casos.
A escalada desse fenômeno acende o alerta das autoridades e evidencia como sinais aparentemente banais podem ser vistos como desafios diretos dentro de comunidades controladas pelo crime organizado. A dinâmica ficou novamente exposta na última semana, com a execução de quatro jovens mineiros em Biguaçu, em Santa Catarina. As vítimas foram encontradas em um cemitério clandestino utilizado pelo Primeiro Grupo Catarinense (PGC) e, segundo as investigações, não tinham ligação comprovada com facções criminosas.
Casos semelhantes têm se repetido em diferentes regiões do país. Em 2025, o influenciador baiano conhecido como Kakay foi morto a tiros após ter a casa invadida. A polícia apura se uma foto publicada por ele nas redes sociais, na qual aparece fazendo um gesto com três dedos, pode ter motivado o crime. O sinal é associado ao Bonde do Maluco (BDM) e teria sido interpretado como provocação, já que ele morava em uma área dominada pelo Comando Vermelho, facção rival.
Outro episódio de grande repercussão ocorreu no Ceará, quando um jovem paulista que viajava para Jericoacoara foi sequestrado e assassinado após publicar fotos turísticas em que fazia um gesto ligado ao número três. Para os criminosos que o interceptaram, a imagem foi entendida como apologia a facções adversárias.
Segundo o professor de Direito Penal Armindo Robinson, os gestos e símbolos usados por facções funcionam como códigos visuais de intimidação e afirmação territorial. Eles são empregados tanto no contato presencial dentro das comunidades quanto nas redes sociais, ampliando o alcance dessas mensagens.
“Para os criminosos, muitas vezes não importa quem é a vítima nem se ela tem ligação com o crime. Um simples gesto pode ser interpretado como afronta e resultar em violência letal”, explica o especialista.
Entre os sinais mais conhecidos estão o gesto de três dedos erguidos, associado ao chamado “Tudo 3”, referência às três letras do Primeiro Comando da Capital (PCC), e o gesto com dois dedos levantados, conhecido como “Tudo 2”, símbolo do Comando Vermelho (CV). Além disso, cortes de cabelo, tatuagens, roupas e poses em fotografias também podem ser confundidos com códigos faccionais, aumentando o risco de interpretações fatais.
A predominância desses símbolos varia conforme a região do país. O “Tudo 2” é associado ao Comando Vermelho e a grupos aliados em estados como Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás. Já o “Tudo 3” é ligado ao PCC e a facções parceiras presentes em São Paulo e em praticamente todas as demais unidades da federação, além de grupos como Bonde dos 13, Amigos dos Amigos e Bonde do Maluco.
Especialistas alertam que a banalização desses códigos e sua disseminação nas redes sociais ampliam o risco para pessoas comuns, que muitas vezes desconhecem o significado dos gestos e acabam pagando com a própria vida por interpretações distorcidas impostas pelo crime organizado. Com informações: Bacci Notícias
