|
Hoje é Terça-feira, 13 de Janeiro de 2026.
A psicóloga Jéssica Mras, de 33 anos, decidiu passar por uma mastectomia bilateral preventiva mesmo sem apresentar diagnóstico de câncer ou alterações em exames clínicos. A decisão ocorreu após a descoberta de uma mutação no gene BRCA2, associada a um risco elevado de desenvolvimento de câncer de mama e outros tumores. A escolha foi construída ao longo de meses, baseada em histórico familiar, acompanhamento médico especializado e reflexões sobre prevenção e qualidade de vida.
O primeiro alerta surgiu em 2018, quando a avó de Jéssica morreu em decorrência de um câncer de pâncreas diagnosticado tardiamente. Três anos depois, em 2021, a mãe recebeu o diagnóstico de câncer de ovário, enfrentando um tratamento longo e delicado. Durante esse processo, médicos levantaram a suspeita de predisposição genética, confirmada após exames que identificaram a mutação no gene BRCA2.
Com o resultado positivo, Jéssica foi orientada a realizar acompanhamento especializado. Embora não tenha reagido com desespero ao diagnóstico genético, ela relata que precisou lidar com a responsabilidade de decidir como agir diante do risco aumentado. Os genes BRCA1 e BRCA2 são responsáveis por reparar danos no DNA, e quando sofrem mutações, aumentam a probabilidade de surgimento de tumores, especialmente de mama e ovário.
Segundo especialistas, mulheres com mutação no BRCA2 podem ter até 45% de risco de desenvolver câncer de mama ao longo da vida, além de maior probabilidade de outros tipos de câncer. No entanto, a presença da mutação não significa que a doença seja inevitável, mas exige mudanças no acompanhamento médico e na tomada de decisões preventivas.
Após consultas com mastologistas, oncologistas e cirurgiões plásticos, Jéssica avaliou duas opções: a vigilância intensa, com exames frequentes, ou a mastectomia bilateral redutora de risco. Influenciada pela experiência da mãe e pelo entendimento de que poderia enfrentar a mesma cirurgia no futuro, ela optou pela retirada preventiva das mamas.
A cirurgia foi realizada em agosto de 2024, com preservação dos mamilos. O pós-operatório foi mais difícil do que o esperado, exigindo auxílio constante e enfrentamento de dores e limitações físicas. O impacto emocional também foi intenso ao se deparar com as cicatrizes e com um corpo diferente do habitual.
O processo de reconstrução mamária ocorreu em etapas, começando com a colocação de expansores para preparar a pele antes das próteses definitivas. Jéssica destaca que não se trata de uma cirurgia estética, mas de um percurso longo e exigente, tanto fisicamente quanto psicologicamente.
A análise das mamas retiradas revelou um achado inesperado: células atípicas em estágio pré-cancerígeno. Segundo os médicos, a cirurgia foi realizada no momento certo, evitando que a paciente precisasse enfrentar, além da mastectomia, um tratamento oncológico completo.
Apesar da redução significativa do risco de câncer de mama, o acompanhamento médico continua. A mutação no BRCA2 também eleva o risco de câncer de ovário, e a retirada preventiva dos ovários é uma possibilidade futura, considerada mais complexa por envolver menopausa precoce e impactos na fertilidade. No caso de Jéssica, essa decisão pode ser avaliada por volta dos 45 anos, conforme orientação médica.
A maternidade também se tornou um tema sensível, já que existe 50% de chance de transmissão da mutação genética aos filhos. Alternativas como congelamento de óvulos e diagnóstico genético pré-implantacional estão disponíveis, mas envolvem custos e questões éticas.
Histórias como a de Jéssica ganharam maior visibilidade após relatos públicos de outras mulheres com mutações genéticas semelhantes. Para especialistas, a genética não determina o destino, mas antecipa escolhas. No caso dela, a decisão foi tomada com o objetivo de preservar a saúde e ampliar as possibilidades de futuro, mesmo diante de dúvidas e desafios que ainda seguem em construção. Com informações: g1
