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Hoje é Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2026.
O início do ano é tradicionalmente marcado por reflexões, planos e recomeços. Inserido nesse contexto simbólico, o Janeiro Branco surge como uma campanha nacional voltada à conscientização sobre a importância da saúde mental e emocional. Criado em 2014, o movimento foi oficializado em todo o Brasil pela Lei Federal nº 14.556/2023. Em Mato Grosso do Sul, a iniciativa ganhou força com a Lei Estadual nº 6.256/2024, de autoria da deputada estadual Mara Caseiro (PSDB), que instituiu o mês dedicado à promoção de ações educativas e preventivas em todo o Estado.
Inspirado na ideia de uma “tela em branco”, o Janeiro Branco propõe que cada pessoa possa ressignificar sua relação consigo mesma, reconhecendo emoções, limites e a necessidade de buscar ajuda diante do sofrimento psíquico. Para a deputada Mara Caseiro, a campanha chama atenção para um tema que por muitos anos permaneceu invisibilizado. Segundo ela, transtornos como depressão, ansiedade e estresse crônico não devem ser tratados como fraqueza, mas como questões de saúde que exigem acolhimento, empatia e tratamento adequado.
Os dados reforçam a urgência do debate. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE – 2019), cerca de 6,8 milhões de brasileiros adultos conviviam com diagnóstico de depressão. Em Mato Grosso do Sul, esse número chegava a 86,6 mil pessoas, sendo mais da metade concentrada em Campo Grande. A pesquisa também aponta que mais de 133 mil sul-mato-grossenses foram diagnosticados com outros transtornos mentais, como ansiedade, transtorno bipolar e esquizofrenia. Entre adolescentes, levantamento do IBGE indicou que milhares relataram sentimentos recorrentes de solidão.
Dados mais recentes da Secretaria de Estado de Saúde (SES) mostram que, entre 2022 e 2025, o SUS registrou mais de 84 mil atendimentos relacionados a transtornos depressivos e ansiosos no Estado. O número reflete tanto o aumento da demanda quanto a ampliação do acesso à Rede de Atenção Psicossocial.
Especialistas destacam que a saúde mental é complexa e envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. O psiquiatra Adriano Bernardi explica que o diagnóstico não pode ser simplificado, pois considera desde aspectos neuroquímicos até a história de vida e o contexto social do paciente. Segundo ele, apesar do maior acesso à informação, o preconceito ainda faz com que muitas pessoas procurem ajuda tardiamente.
No Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, o psiquiatra Kleber Meneghel Vargas observa a gravidade dos casos atendidos e aponta a falta de leitos especializados como um dos principais desafios, além da necessidade de fortalecer a formação profissional, a assistência e a pesquisa em saúde mental no SUS.
A SES informa que o Estado tem avançado na consolidação das políticas públicas de saúde mental, com ampliação dos CAPS, capacitação de equipes, organização de fluxos assistenciais e retomada do Comitê Estadual de Prevenção ao Suicídio. O Janeiro Branco atua como ferramenta estratégica ao integrar essas ações permanentes de promoção do cuidado.
Para pesquisadores da UFMS, o sofrimento psíquico também é um fenômeno social, que atinge de forma mais intensa populações vulneráveis, como mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, negros e indígenas. Eles alertam ainda para os elevados índices de suicídio registrados no Estado, o que reforça a necessidade de políticas públicas integradas.
Psicólogos ressaltam que o sofrimento emocional nem sempre se manifesta de forma visível. Muitas vezes, os sinais surgem na intimidade e passam despercebidos. Campanhas como o Janeiro Branco ajudam a ampliar o diálogo social, permitindo que as pessoas reconheçam seus sentimentos e busquem apoio. O autocuidado, a escuta qualificada e a atenção aos próprios limites são apontados como medidas fundamentais de prevenção.
Relatos pessoais também evidenciam a importância do tema. Histórias de pessoas que convivem com transtornos mentais mostram trajetórias marcadas por desafios, tratamentos prolongados e processos contínuos de adaptação. Para muitos, o acesso à informação e a redes de apoio foi decisivo para enfrentar o sofrimento.
Dentro do debate contemporâneo, surgem ainda discussões sobre terapias complementares, como o uso do canabidiol, sempre de forma responsável e com acompanhamento médico. Profissionais destacam que, embora não haja consenso científico para todos os casos, estudos e relatos clínicos apontam benefícios específicos, especialmente no controle da ansiedade e do sono.
Ao instituir oficialmente o Janeiro Branco em Mato Grosso do Sul, o poder público reforça o compromisso com a saúde mental como direito social e responsabilidade coletiva. A campanha convida a sociedade a substituir o silêncio pela escuta, o preconceito pela empatia e a desinformação pelo cuidado contínuo, não apenas em janeiro, mas ao longo de todo o ano. Com informações: ALEMS
