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Hoje é Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2026.
Enquanto o fim do ano costuma ser marcado por retrospectivas e balanços, uma urgência silenciosa atravessa dezembro sem pausa: a necessidade constante de doação de sangue e de medula óssea. Embora não apareçam em rankings ou listas de acontecimentos de destaque, esses gestos seguem sendo decisivos para a continuidade do tratamento de milhares de pessoas.
A história de Michelly Marson, de 33 anos, moradora de Campo Grande, ajuda a ilustrar essa realidade. Gestora de Recursos Humanos, ela saiu do Estado em dezembro para doar medula óssea após uma compatibilidade considerada rara. Michelly não sabe quem recebeu sua doação, nem o nome ou a origem da pessoa beneficiada. Sabe apenas que sua decisão pode representar a chance de vida para alguém, em qualquer parte do mundo.
Doadora de sangue há alguns anos, hábito herdado do pai, Michelly decidiu se cadastrar como doadora de medula óssea em março, durante uma visita ao Hemosul, incentivada pelo namorado. Sem imaginar que seria chamada tão rapidamente, foi surpreendida pelo contato informando a compatibilidade.
A decisão de seguir adiante foi imediata. Segundo ela, não houve hesitação diante da possibilidade de ajudar alguém. O processo passou a ser acompanhado pelo Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), responsável por intermediar todo o contato entre o doador, o hemocentro e a equipe médica.
Após exames iniciais em Campo Grande, Michelly viajou para São Paulo no início de dezembro, onde passou por avaliações médicas detalhadas. A doação foi realizada por aférese, método semelhante à doação de sangue, precedido por cinco dias de medicação para estimular a produção de células-tronco. Apesar do receio comum em relação à dor, ela relata que o procedimento foi tranquilo, com apenas desconfortos leves relacionados à medicação.
A doação ocorreu no hospital Beneficência Portuguesa. Michelly chegou ao local ainda de madrugada e permaneceu internada até a noite, acompanhada pelo namorado e pela equipe médica durante todo o processo. Após a doação, o sentimento predominante foi de alívio e gratidão por tudo ter ocorrido bem.
Pelas regras do Redome, doador e receptor não se conhecem. O sigilo é mantido para ambos, sendo possível apenas solicitar informações gerais sobre o estado de saúde do paciente após seis meses. A troca de mensagens ou contatos só pode ocorrer posteriormente, caso haja concordância de ambas as partes.
Para Michelly, mesmo sem conhecer o receptor, a certeza de ter contribuído para a continuidade de uma vida é suficiente. Filha de um doador de sangue já falecido, ela vê o gesto como uma continuidade de valores aprendidos em casa.
A história individual reflete um cenário mais amplo em Mato Grosso do Sul. De acordo com o Hemosul, o número de doações de sangue segue abaixo do ideal. Para manter os estoques em níveis seguros, seriam necessárias entre 120 e 150 doações diárias, mas a média registrada em 2025 ficou entre 50 e 70. Em períodos de feriados prolongados e fim de ano, a situação tende a se agravar.
Os tipos sanguíneos mais críticos costumam ser o O negativo, usado em emergências, e as plaquetas, que têm validade de apenas cinco dias e são essenciais para pacientes em tratamento contra o câncer. Como o sangue não pode ser fabricado, a única forma de manter os estoques é por meio da doação voluntária.
Em Campo Grande, a doação de sangue e o cadastro para doação de medula óssea são realizados no Hemosul, localizado na Avenida Fernando Corrêa da Costa, nº 1304, na região central. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h, e aos sábados, das 7h às 12h. Para doar, é necessário apresentar documento oficial com foto e estar em boas condições de saúde.
Em um período marcado por balanços e encerramentos de ciclo, a história de Michelly não fala de números, mas de um gesto simples, silencioso e insubstituível, capaz de transformar destinos. Com informações: Campo Grande News
