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Hoje é Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2026.
Um doce ancestral feito à base de mandioca e coco atravessou histórias de vida e fronteiras de Mato Grosso do Sul para conquistar reconhecimento nacional. O Abadô de Nanã, receita ligada à ancestralidade e à espiritualidade no candomblé, foi o prato que levou o Ilê Asé Efunsolá de Ajagunã, localizado no Jardim Seminário, a vencer o edital público Sabores e Saberes, promovido pela Fundação Palmares.

Casa no Jardim Seminário foi única representante de MS no projeto. (Foto: Mariane Lopes)
A casa foi aprovada no edital no fim de 2024 e, desde o início de 2025, recebeu a premiação, que possibilitou a compra de 16 kits de cozinha industrial. Os equipamentos foram adquiridos com recursos do projeto e devem ampliar as atividades do terreiro.

Geiser Barreto é babalorixá do Ilê Asé Efunsolá de Ajagunã. (Foto: Mariane Lopes)
Nesta semana, o babalorixá Geiser Barreto, líder do Ilê Asé Efunsolá de Ajagunã, esteve em Brasília representando a casa em um encontro com outros pais e mães de santo premiados. Ele foi o único representante de Mato Grosso do Sul entre 45 casas selecionadas em todo o país.
Mais do que uma receita, o Abadô de Nanã carrega memória, fé e um elo profundo entre quem cozinha, quem oferece e quem se alimenta, tanto no corpo quanto no espírito. Segundo Geiser Barreto, a escolha do doce tem relação direta com a ancestralidade e com uma história pessoal recente.

Alimento para o corpo, doce também é oferta para Orixá. (Foto: Mariane Lopes)
Nanã é considerada o orixá mais velho no candomblé e é associada à figura da avó. No ano anterior à inscrição no edital, Geiser perdeu sua avó de sangue, dona Leda, devota de Nanã e conhecida pelo apreço por doces. Para ele, o Abadô simboliza um doce de vó, simples e acolhedor, capaz de abraçar quem o consome.
Feito com mandioca amarela, coco e açúcar, o Abadô lembra o beijinho, mas tem preparo mais simples e acessível. A receita não leva leite, o que permite o consumo por pessoas com intolerância à lactose. A simplicidade foi um dos critérios valorizados pelo edital, que buscava uma receita ligada ao território, à ancestralidade, à espiritualidade e à possibilidade de geração de renda.

Preparo envolve união, fé e irmandade. (Foto: Mariane Lopes)
No centro da produção do vídeo inscrito no concurso esteve Glória Dayane, filha de santo da casa e responsável pelo preparo do Abadô durante as gravações. A relação dela com o doce está ligada a momentos marcantes da vida pessoal e religiosa.
Glória conta que chegou ao terreiro em um período difícil, quando estava desempregada e criando sozinha três filhos. Desde o primeiro dia, sentiu acolhimento e, pouco tempo depois, ficou responsável pelo preparo do Abadô de Nanã em uma grande celebração da casa. Ao estudar a simbologia do orixá, ela percebeu a relação entre Nanã, associada ao barro e à criação da vida, e a mandioca, que também nasce da terra fértil.
Com o passar dos anos, a ligação se fortaleceu quando sua filha foi reconhecida dentro da religião como ekedi, cargo ligado ao cuidado e ao zelo, também associado a Nanã. Para Glória, essa trajetória reforça a ideia de que nada acontece por acaso dentro da religião.
A produção do vídeo foi coletiva e realizada pelos próprios filhos da casa, sob coordenação da produtora cultural Mariane Lopes, que também integra o terreiro. O material apresentou o passo a passo da receita, mas também contou a história do Ilê, das pessoas envolvidas e do território onde está inserido.
Para Mariane, falar de comida é falar de afeto e identidade, além de ampliar o acesso à cultura afro-brasileira e contribuir para o enfrentamento de preconceitos. Já para Geiser, representar Mato Grosso do Sul em um edital nacional tem peso simbólico, mas também evidencia a falta de acesso e de suporte enfrentada por muitos terreiros.
Ainda assim, o babalorixá define o candomblé como espaço de resistência, acolhimento e família. Segundo ele, a comida ancestral funciona como uma ponte para que mais pessoas compreendam a religião e seus valores.

Gravações foram feitas em 2024. (Foto: Mariane Lopes)
Com os novos equipamentos de cozinha, o Ilê Asé Efunsolá de Ajagunã já projeta novos projetos sociais e formas de ampliar o impacto comunitário. Para os integrantes da casa, a vitória no edital mostra como uma receita simples pode gerar transformação, renda e reconhecimento cultural. Com informações: Campo Grande News
