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'Emicida Racional VL 2': rapper se inspira em Racionais MC's para buscar novos caminhos

Álbum conecta espiritualidade, crítica social e sonoridades globais em uma das fases mais inventivas da carreira do rapper, marcado por homenagens, luto e retomada das origens.
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Emicida lança um de seus trabalhos mais pessoais ao homenagear a mãe e revisitar a influência dos Racionais MC’s (Foto: Walter Firmo/Cecropia) Por: Editorial | 11/12/2025 07:49

Em seu novo álbum, Emicida apresenta um dos projetos mais pessoais de sua trajetória, refletindo sobre a morte da mãe, Dona Jacira, sobre relações familiares e sobre a influência do grupo Racionais MC’s em sua formação artística. O resultado é um disco que expande seu repertório e reafirma sua relevância em um gênero em constante transformação, embora possa soar desafiador para ouvintes pouco habituados às camadas mais complexas do rap.

Quando “Emicida Racional VL.2: Mesmas Cores e Mesmos Valores” foi anunciado, surgiu a dúvida sobre qual versão do artista surgiria no disco: o MC combativo das primeiras mixtapes, o pensador dedicado à negritude e à ancestralidade ou o criador de “AmarElo”, que ampliou sua presença no mainstream. Em 2025, entretanto, o rapper decidiu revisitar as próprias raízes, retornando ao espírito das batalhas de rima e ao universo da Zona Norte de São Paulo.

Capa do EP 'Emicida Racional VL. 3: As aventuras de Dj Relíquia e LRX' — Foto: Créditos: Redes sociais/Cecropia

Capa do EP 'Emicida Racional VL. 3: As aventuras de Dj Relíquia e LRX'. (Foto: Créditos: Redes sociais/Cecropia)

O EP “VL.3: As Aventuras de LRX e DJ Relíquia”, lançado anteriormente em parceria com DJ Nyack, já sinalizava esse caminho ao revisitar bases clássicas dos Racionais MC’s e trazer versos marcantes da carreira do artista. A trilogia parte do verso “Quando os caminhos se confundem, é necessário voltar ao começo”, e, para Emicida, esse começo é inegociavelmente ligado aos Racionais.

O retorno tem caráter pessoal e artístico. Em sua vida íntima, funciona como um processo de reorganização após um período turbulento, marcado pelo fim da parceria com o irmão Evandro Fióti na Laboratório Fantasma e pela morte da mãe, em meio a conflitos familiares. No campo musical, é uma reafirmação de valores que, segundo o rapper, foram se perdendo no rap contemporâneo.

Ao longo do álbum, Emicida disseca a discografia dos Racionais, explorando samples, narrativas e simbologias. Ele vê o projeto como um gesto de amor e incentivo para que o público mergulhe no rap de forma mais profunda, para além de trechos virais e legendas rápidas. O disco não se limita a ser uma releitura de “Cores & Valores” (2014), mas um diálogo entre passado e presente, que intercala estruturas conhecidas com reflexões sobre sua vida atual — movimento que pode surpreender ouvintes que esperam apenas um remix do trabalho original.

A abertura apresenta uma colagem de cinco minutos com áudios de Dona Jacira, incluindo pensamentos cotidianos e comentários sobre escrita. A faixa termina com dois minutos do próprio Emicida chorando, um registro nu de luto. Já instrumentais como “O que noiz faz com essa dor” e “A coisa mais esperançosa e mais dilacerante são a mesma” contam histórias sem palavras, cruzando influências de Racionais, Sandra de Sá, Tim Maia e do próprio Emicida para compor uma linha histórica da música preta brasileira.

Capa do disco 'Cores & Valores' do grupo Racionais Mc's — Foto: Créditos: Redes sociais/Divulgação

Capa do disco 'Cores & Valores' do grupo Racionais Mc's (Foto: Créditos: Redes sociais/Divulgação)

Em “A mesma praça”, com Rashid e Projota, o rapper revisita a confusão da Virada Cultural de 2007, que resultou na proibição de shows de rap no centro de São Paulo, reimaginando a faixa “A praça” dos Racionais sob a ótica do público. Já “Preto Zica” ganha elementos de samba e participação das filhas do artista.

Entre as imagens centrais do projeto estão as curvas de Lissajous, representando o entrelace entre Emicida e seus ídolos. A capa, fotografada por Walter Firmo, apresenta um estúdio desorganizado diante de uma mata, com uma poltrona que remete à terapia — uma síntese visual do período de introspecção do rapper.

A complexidade do álbum é deliberada: longos áudios caseiros, faixas de durações irregulares, ausência quase total de refrões e densidade de referências compõem um trabalho pensado para ser investigado. Emicida convida a um mergulho profundo, especialmente em faixas como “Finado Neguinho Memo”.

Em um contexto em que setores da sociedade tentam associar música urbana ao crime, o disco também atua como protesto, denunciando violações do Estado e defendendo o papel cultural do hip-hop. No fim, “Emicida Racional VL.2: Mesmas Cores e Mesmos Valores” não é um projeto voltado para quem conheceu o rapper por “AmarElo”, mas uma carta de amor ao rap, aos Racionais e à própria história do artista — uma obra pensada para fãs e pesquisadores do gênero. Com informações: g1




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